“O mundo implora: compre uma bicicleta”

Há alguns dias atrás, a Clara D’Almeida enviou para a lista da Bicicletada esse texto, escrito por Douglas Tedesco, disponível no site Recanto das Letras. O texto é interessante pela singeleza com que faz o apelo para cidades mais humanas e melhores relacionamentos quando pedalamos.

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O mundo implora: compre uma bicicleta


Ontem, um carro na esquina de lá de qualquer casa no alto vazio de uma colina atropelou uma menina de mais ou menos 80 anos… Ela morreu e poderia ter sido você. E quantas coisas dessas desencadeiam palavras soltas, desencadeiam outros tantos acidentes de percurso, de quem não consegue chegar ao objetivo… Pobre velhinha de oitenta anos, tinha tanto para viver. E eu que tenho muito mais também me preocupo. Tenho? Quem sabe… Talvez eu passe por aquela esquina, por que estas coisas acontecem, às vezes sem por que mesmo, nós passamos por estas esquinas. Mesmo que não tenha nada para ver lá, que não tenha nenhum conhecido pra se visitar, nós iremos. Então não jure, não prometa, mesmo que sem motivos, poderemos ir! Quem é que sabe o dia de amanhã? Quem é que sabe onde estará daqui um segundo? Tá bom, daqui a dez… Podemos estar bem longe daqui a dez, porque andei contando meus passos, e dou um a cada segundo, e dez passos te levam tão longe… Mas numa noite assim bem louca depois de ver filmes, e no caminho de alguma balada, boas esquinas podem aparecer, e elas aparecem só para nos ver, pra que também a vejamos e saibamos o cada um contém. Então o mundo implora: compre uma bicicleta, porque bicicletas não atropelam velhinhas de oitenta anos, se atropelarem machucam menos, e as feridas não formam casquinhas pra se ficar tirando depois que não tiver mais nada para fazer… Compre uma bicicleta porque as bicicletas não poluem, elas andam é com as nossas pernas, ou será que nossas pernas é que andam com elas? As bicicletas não param no sinal, elas não dão sinal, elas são sinal de nada, uma bicicleta é tão inocente que quando você cai, quase morre de rir! Nos carros você os machuca, você se machuca. E tudo o que é de duas rodas funciona melhor, tudo que é dois é bom: os namorados apaixonados têm que ser dois, a vida sozinha é uma só, com alguém são duas… Um livro bom são você e ele, sem ele você é um só sem nada pra ler, um papel e uma caneta, que dupla perfeita, um ator e uma personagem que cara metades, um céu e um mar, é no mínimo para amar. Então por favor, pelo seu biscoito favorito, pelo almoço de domingo, pela obra esperada encontrada a preço de banana num sebo: tenha uma bicicleta (com duas rodas lembre-se que tudo de dois é melhor) se não tiver compre, e ande! Convide alguém para andar, aí então suba as colinas, ajude as velhinhas, pare em frente às residências de muro alto e aperte a campainha pra depois sair correndo, seja cínico e se te pegarem jure até a morte que não foi você, porque você não sabe onde estará daqui a três segundos, ta bom, treze segundos. As bicicletas molham com a chuva, deixam você se molhar, deixam também o sol secar… ah, o sol, o rei é bem visto do banco de uma bicicleta, e foi comprovado que o sol e sua vitamina D e luminosidade natural nos dá mais energia e faz sorrir, e a chuva é H2O, hello baby, você sabe o que o H2O faz. E se você escorregar alguém vai te ajudar, é social, é mais humano, bicicletas são tão humanas! Elas falam quando estão em movimento, elas são o começo e o fim da humanidade! Hitler morreu pensando numa bicicleta; Mussolini, Gandhi, Tereza de Calcutá, São Pedro, Mata Hari, Evita Perón, Lady Diana, Betinho… Seriam tão mais felizes se tivessem uma bicicleta, porque as bicicletas contém altas doses de serotonina. Você anda e chega cansado, e quando chega em casa reclama que está cansado, então alguém lhe faz carinho (alguém, lembre-se que tudo de dois é melhor) e você fica bem! Meus parabéns porque você tem uma bicicleta. Todos os executivos e suas malas arquivos, as atrizes pornôs e seus acessórios obscenos, os ditadores e sua ira, os nerds e suas mochilas, as patricinhas e os seus casacos rosa, as donas de casa e seus brincos de bijuteria, as cabeleireiras e seus bobs recém comprados, todos têm espaço no mundo das bicicletas! Ele é singular, alternativo e democrata, a bicicleta foi projetada exatamente pra esse tipo de gente. Funciona assim: Você tira a bicicleta de onde ela está, coloca o seu bumbum (no caso de ser você mesmo) no banco, também conhecido como “selim” (as bicicletas são tão amadas que seus bancos têm apelidos fofinhos) e sem haver nada na frente coloque os seus pés (no caso de ser com você mesmo a experiência) nos pedais (se reparar bem, a palavra pedal só pode se referir a pé, pois começa com “pe”, repare bem e me dará certeza), coloque as mãos no guidon (nome estranho mas é como se fosse o volante do carro, mas esqueça o carro, pense só no exemplo, o guidon vem do “guia-dom”, porque todas as pessoas que usam bicicletas tem o dom de guiá-las) e siga, colocando força nos pés que estão nos pedais, olhe para a frente, não tire as mãos do guidon e pedale (ato de fazer força com os pés nos pedais para que a bicicleta continue em movimento) e dentro de pouco tempo sua vida irá mudar, você sentirá a diferença, é muito melhor do que ler um texto idiota, porque nesse momento você não está fazendo isso, ah imagine! E tudo o que você precisa é de uma bicicleta, elas são os veículos do futuro, as armas do novo milênio que nos livrarão dos males, extraterrestres e legiões de atrizes pornôs com acessórios que estão por vir. Nas bicicletas você encontra moradia, desde que haja um lugar, uma cobertura sobre ela, aí entra o lado social, a convivência humana (e duas pessoas podem morar numa mesma bicicleta, pois existe o bagageiroe não se paga aluguel, e ela irá aonde você for, é prática e lhe deixa ver o sol, viver ao ar livre como um bom homem do campo, e seu sonho, a base de todas as suas vontades é ser um homem do campo, e para nada mais faltar, um bom homem do campo com uma bicicleta! Numa sociedade secreta as bicicletas discutem o bem da humanidade, sua escravidão de terem que ser vendidas nas lojas, mas são humanas e aceitam essa submissão, não perdem orgulho e seu real valor por isso, planejam os tombos que irão dar em seus donos, decidem quando vão estragar, e até mesmo quando vão sumir, são todas essas táticas necessárias para que não haja desequilíbrio ecológico, escassez de alimento e água, extinção das espécies, inclusive a delas. E sabem por que dizem que os orientais são o povo mais sábio do mundo? Porque cultivam esse bem, a bicicleta! E qualquer um pode ser feliz com a sua, você e a bicicleta, lembre-se que tudo de dois é melhor, as pessoas vendo você feliz, sentirão vontade de ter também a sua bicicleta, e essa corrente se abrangerá por todo o universo, fazendo um planeta terra saudável e sobre duas rodas, lembre-se que tudo de dois é melhor! Reflita, se todas as idéias fossem simples assim, se o mundo dependesse de coisas boas tão comuns… quem sabe um dia… é só você comprar sua bicicleta!

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