Radicalizar é ir na raiz

Publicada na lista “bicicletada-pe@lists.riseup.net”, em 10 de março

Provos na Holanda
Após a bicicletada, foi uma avalanche tão grande de emails q, por esse motivo, eu tou ainda digerindo aos poucos eles. aos poucos. no meio, me deparei com uns vídeos do youtube postados por uma garota chamada cristina calheiros. são bons. tão bons q os pus entre os favoritos do orkut. mas…

mesmo com dados interessantes sobre as bicicletas em alguns países do ocidente, dados concretos e estimulantes, fica a sensação de q a aplicação exclusiva ou hegemônica da magrela em espaços públicos de cidades como amsterdã e copenhagen se deu de forma tranquila, sem maiores atribulações. mais: seria essa conquista obra (claro) de estados desenvolvidos, avançados, civilizados. algo q estados subdesenvolvidos (a.k.a. atrasados) deveriam, quem sabe, copiar, a reboque. e, não, não teria sido obra de reivindicações encarniçadas do povo. pelo vídeo, tá longe de ter sido assim.

é? e o provos? onde ficaria o provos [http://pt.wikipedia.org/wiki/Provos] nisso tdo? para aqueles q não conhecem, provos (de “provocativos” ou “Provokat” em neerlandês) foi um movimento contracultural nascido em amsterdã q deu origem a grande parte da contracultura de sua década, a de 60. fruto do pontapé dado por happenings de um freak de nome robert jasper grootveld, o provos teve, ao mesmo tempo, uma amplitude / adesão e uma radicalidade poucas ou algumas vezes encontradas em seus congêneres de outros países, como os eua e a grã-bretanha – proporcionalmente falando. sem o papo-furado do peace & love e o rainbow bovino desses países, encontramos como símbolo maior do provos, ela, o motivo de estarmos aqui nessa lista, a bicicleta, com um detalhe aparentementemente bobo e non-sense, mas q seria utilizado largamente pelos proto-hippies linha-dura holandeses: sua cor, a branca. tdo no provos era branco. a cor provos, por excelência, era o branco. mais: bicicleta branca virou sinônimo de provos [segue foto, bastante sugestiva, em anexo]. afinal, essa era um movimento q criticava a urbe em seu conjunto, seus hábitos e sua organização. nada mais natural q a bicicleta aparecesse como proposta prática ao urbanismo burguês.

tomados por uma crítica potente ao status quo, os holandeses enfrentaram, por mais de uma vez, a polícia em batalhas campais selvagens. provos de um lado. polícia do outro. conflito. pau. inclusive, segundo matteo guarnaccia, autor de “provos, amsterdam e o nascimento da contracultura“: “O primeiro choque verdadeiro entre Provos e polícia tem por objeto de discórdia a bicicleta.“. e qdo o movimento chegou em vias de seu declínio, o provos demonstrou o qto havia, mesmo q de forma corrompida, conquistado a opinião pública: alguns de seus integrantes, mais para o mal q para o bem, foram eleitos para a câmara dos vereadores da capital batava.
algumas pílulas provos:

Plano das bicicletas brancas (Provokatie n.o 5)
A bicicleta branca está sempre aberta. A bicicleta branca é o primeiro meio de transporte coletivo gratuito. A bicicleta branca é uma provocação contra a propriedade privada capitalista, porque a bicicleta branca é anarquista! A bicicleta branca está à disposição de quem quer que dela necessite. Uma vez utilizada, nós a deixamos para o usuário seguinte. As bicicletas brancas aumentarão em número até que haja bicicletas suficientes para todos e o transporte branco fará desaparecer a ameaça automobilística. A bicicleta branca simboliza simplicidade e higiene diante da cafonice e da sujeira do automóvel. Uma bicicleta não é nada, mas já é alguma coisa.”

[texto do 2.o número da revista Provo, endereçada à prefeitura:]
Plano das bicicletas brancas
(…)[sobre os carros:] – Ruas e calçadas desaparecem sob as “caixas de ostentação de status”.(…)
É, portanto, absolutamente necessário que o centro de Amsterdã seja fechada ao tráfego de veículos.(…)
Propomos que a prefeitura adquira 20 mil bicicletas brancas ao ano (custo: um milhão de florins), como integração do transporte público.

Tais bicicletas pertencerão a todos e a ninguém.
Desse modo, o problema do trânsito no centro da cidade poderá ser resolvido ao cabo de poucos anos. Como primeiro passo para alcançar a cota de 20 mil bicicletas brancas ao ano, Provo oferece aos voluntários a oportunidade de ter as próprias bicicletas pintadas de branco, apresentando-se à meia-noite em ponto diante da estátua do Moleque na Spuí.(…)
O AUTOMÓVEL é um meio de transporte que só se pode admitir em zonas escassamente habitadas.(…) Aquilo de que necessitamos NESTE MOMENTO é uma solução radical:

NÃO AO TRÂNSITO MOTORIZADO.
SIM ÀS BICICLETAS BRANCAS.”

mas onde quero chegar com toda essa história? o faço para trazer um debate q não comparece no vídeo indicado, qual seja, o de q não é pedindo e/ou esmolando ou esperando a boa-vontade do estado q se consegue o q se quer. não: o q acontece em amsterdã hj não é obra de um estado “avançado” e preocupado com seu povo. foi, antes, obra da vontade de uma geração e de uma comunidade radicalizada e em luta. foi obra de “enragés” [http://pt.wikipedia.org/wiki/Enrag%C3%A9s_(Revolu%C3%A7%C3%A3o_Francesa)]. obra de uma afronta ao estado. de ações diretas. ou seja: ou se exige o q se quer ou apenas se conquista migalhas, nada mais q migalhas. meras ciclovias pra exercício físico – como em boa viagem.

e para uma prática radical – q vai fundo no problema -, uma teoria radical. foi assim no provos, assim tb o foram os pensamentos compilados no “apocalipse motorizado” [conrad, coleção baderna], tantas vezes citado nas discussões presenciais da “bicicletada-pe”.

“só a bicicleta, nenhum carro!”

é pouco o slogan “mais bicicleta, menos carro!”. estavam certos aqueles q gritavam “só a bicicleta, nenhum carro!”. não haverá conciliação enqto a indústria automobilística dominar e incentivar o transporte privado e, assim, determinar os rumos, por meio de lobby, q devem tomar os países q se tornam reféns de sua lógica implacável. vide o caso da rússia comunista, q, após a implantação desse tipo de indústria pelo bloco soviético, teve q reconfigurar suas cidades para o escoamento da produção criando mais e mais estradas. ou ainda, sem ir mto longe, o caso do brasil mesmo, onde algo semelhante ocorreu.

não “somos o trânsito” nem seremos o trânsito enqto houver a dominação dessa indústria. o carro [qdo me refiro ao carro, me refiro ao transporte, principalmente, privado] é totalitário e não abre espaço para q a magrela reconfigure o espaço urbano.

pq?

tentarei expor algumas inquietações minhas como resposta:

*o carro é um bicho folgado e invasivo – a cidade em, no mínimo, 1/3 é dedicada ao carro. pq? pq ele é espaçoso, precisa de veios largos para q se locomova. e com poucas pessoas. em geral, carros carregam 1 ou 2 indíviduos, qdo, na verdade, em suas acomodações cabem, tranquilamente, 5 pessoas. bicicletas ocupam infinitamente menos espaço e podem, tranquilamente, carregar 2 pessoas. com mais bicicletas, maiores podem ser as calçadas para pedestres. ganham os pedestres, ganham os ciclistas. a bicicleta, portanto, democratiza o espaço público.

*o carro é assassino – dados mostram q mais gente morre no trânsito q em guerras [ver no próprio “apocalipse motorizado”, q é de 2004 – portanto, seus dados são, ainda, atuais]. o perigo de alguém sofrer danos irreversíveis com um acidente automotivo é mto, mas mto maior q com uma bicicleta. carros trazem perigo iminente e constante para pedestres e ciclistas. só para ilustrar, este q vos escreve já chegou a atropelar um gurizinho de uns 8 anos, com certa velocidade e sem maiores danos para o gurizinho (somente uns arranhões). imagine se, naquele instante, eu estivesse dirigindo um carro…

*o carro é egoísta – carros isolam seus motoristas e passageiros. com uma visão de uns 180 graus, as pessoas nele transportadas têm uma relação de distanciamento com os demais ao seu redor, com os demais cidadãos. a visão é mediada por vidros, sendo o resto uma grande gaiola de metal. cheiro, som, visão, clima, tdo é ensimesmado no solipsismo de um cubículo. já a bicicleta é radicalmente o oposto: a pessoa nela fica completamente exposta numa perspectiva de 360 graus. não há como ser isolado, individualizado, atomizado. só para ilustrar, uma amiga minha, ao andar comigo a pé próxima ao seu edifício, ficou admirada por perceber q nunca havia notado pessoas q dormiam logo ali, na sua esquina. eram moradores de rua. ela só havia passado pelas imediações até então… de carro.

*o carro é sedentário e preguiçoso – pessoas q se locomovem de carro são mais indispostas a se locomoverem de outra forma, i.e, de forma metabólica. sem surpresa, o bucho cresce e logo um homer simpson nasce. a bicicleta, ao contrário, exige, por natureza, esforço. para o homer simpson motorizado só há uma saída: entrar numa academia de ginástica. e qual o primeiro exercício recomendado pelo instrutor do homer simpson para perda de peso? qual?… sim (eureka!): andar de bicicleta(!)…

*o carro não aproxima: distancia – homens e mulheres embriagados com a capacidade de engolir quilômetros, sem esforço, do carro, tendem a morar cada vez mais distantes dos centros (de trabalho, de lazer, etc) no interior das cidades, principalmente em países como o brasil (só para ficar nesse ex, vide o caso de aldeia, aqui em recife,). e no interior dos estados, o carro tende a criar um fosso crescente entre periferia e centro. ao criarem-se estradas, maiores as dependências dos vilarejos e províncias em relação aos grandes centros (vide o caso do interior de pernambuco em relação ao recife) e maior é a debandada de seus habitantes para os mesmos lugares (vide o caso do nordeste em relação a sp). óbvio, tdo condicionado por um sistema de mercado voraz (o capitalismo) q tem no automóvel seu pavimentador, seu meio de transporte de mercadorias, inclusive humana (força-de-trabalho) – especialmente no brasil. o capitalismo se retroalimenta com o automóvel e a ele (o automóvel) dá a sua substância, seu motivo de existir. o ciclista, por outro lado, vai até onde seu corpo aguenta, o q, de uma forma ou de outra, reforça seus laços comunitários. em resumo: a bicicleta aproxima; o carro distancia.

em conclusão, podemos dizer q a escolha de um ou de outro meio implica na escolha, consequentemente, de modelos políticos e sociais diversos. claro, outros problemas, sem dúvida, podem vir a surgir com a escolha da bicicleta como aríete social. mas é preciso ousar. e romper. alhos com bugalhos não se misturam. podem até se misturar. mas a iguaria criada não vai passar de uma gororoba. de tempero porcaria.

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