Contra a tirania do carro: sobre bicicleta (…)

CONTRA A TIRANIA DO CARRO: sobre bicicleta, risco, medo e Edukators…
Publicado na comunidade “Bicicletada Recife”, do Orkut, em 13 de junho de 2009
Bicicleta é libertação

As seguintes linhas fundam-se na articulação de três teses básicas:

1. A relação de opressão não se rompe sem enfrentamento; libertação é combate, exposição do conflito e luta para superação por iniciativa do pólo oprimido. É a velha máxima de que a libertação é fruto dos próprios setores oprimidos; não é presente ou doação do pólo opressor.

2. O risco é constante na vida, sobretudo quando se busca viver “em liberdade”. Não entramos em considerações filosóficas tão aprofundadas sobre liberdade; mas basicamente liberdade está intrinsecamente vinculada a risco.

3. O medo é elemento central na vida – tanto pode ser paralisante como pode ser ajuda a manter o alerta necessário para viver saudavelmente. Portanto é fundamental aprender a lidar com o medo.

Sem muita profundidade, procuramos articular estas três idéias extremamente densas em torno da luta por usar bicicleta como meio de transporte em vias que até estão tem sido de intenso tráfego do apocalipse motorizado. Este pequeno texto urge da inquietação de ouvir falar muito as pessoas (de um jeito até bastante intenso e bem intencionado), que têm interesse em andar de bicicleta, gostariam de locomover-se pela cidade pedalando, mas que não circulam porque têm medo dos carros ou coisa que o valha… Assim, parece um beco sem saída, não é? O que fazer?

Mesmo sem cair em maniqueísmos, nas relações de assimetria de poder podemos identificar pólos, de modo simplificado, talvez, o que nos possibilita falar em pólos: opressor e oprimido. As relações sociais tem se organizado com base nesta assimetria de poder; socialmente desigual constroem-se as relações de poder: relações de opressão, autoritarismo, sobreposição do “mais forte”. Tratando-se de do trânsito isto se reflete de modo muito simbólico, e podemos realizar várias combinações. Sabe-se, por exemplo, que @ pedestre é o pólo mais fragilizado.

Não é preciso de muita coisa pra perceber que o território é organizado para o veículo motorizado – todo o restante é “detalhe”, empecilho… inclusive a bicicleta, também meio de transporte, que demonstra-se com enorme potencial humanizador do trânsito e alternativa à relação auto-predatória expressada no carro. Então, na relação carro-bicicleta, podemos notar o autoritarismo fundante, a sobreposição do carro sobre a bicicleta.

Esta relação é profundamente arriscada, o risco é uma constante. Quem anda de bicicleta, sente-se nu, absolutamente despida de qualquer proteção diante do apocalipse motorizado. Não é por acaso que as pessoas sintam-se bastante inseguras em usar bicicletas no território organizado para o carro, com toda sua arrogância, violência e potencial de morte. Falamos que a vida já indica risco, estar vivo é manter o risco de acontecer algo, de bom ou ruim… mas é risco.

Vida indica risco. O máximo de segurança é prisão, já disse Roberto Freire, em Utopia e Paixão. Pedalando, digamos que seu risco aumenta. Não dá pra mentir nisto – honestamente, o potencial de risco natural à vida vida é aumentado andando de bicicleta neste trânsito tal como tem sido. Mas não é o risco natural da vida – é um risco maximizado diante do atual estado de coisas, da relação de sobreposição do mais forte… (É pior do que se imagina: quem não sonha em ter um carro?!).

Estamos pres@s. Esta relação autoritária nos sufoca. A qualquer suspiro de vida, sentiremos o ar rarefeito – abafam-nos. O problema é que aprendemos a viver com nossas estratégias de respiração (enquanto a poluição não toma conta de tudo). Muito disto porque temos medo de enfrentar o risco. Dá medo estar aberta ao risco, potencializar os espaços de liberdade, o que requer decisão, iniciativa, auto-regulação – e fomos ensinad@s a ter medo, sermos medros@s.

Podemos construir bom diálogo do vídeo “Educadores” (Edukators) com texto de João Ubaldo Ribeiro. Dentro de suas especificidades, ambos nos provocam sobre nossas vidas, concepções e questões políticas em geral. O vídeo que é muito provocador e gera bastante debate, tem momento em que protagonistas conversam sobre o medo e nossa relação com ele. O medo (em excesso) tanto pode nos paralisar, nos deixar inertes, medros@s, como também pode (ausência total) nos deixar sem noção, dementes; uma possível terceira hipótese seria um estágio dinâmico de trato com o medo que nos mantenha alerta, nem nos deixe medros@s tampouco sem noção – que avancemos as prisões, mas estejamos alertas sobre os riscos que corremos com a opção tomada.

João Ubaldo Ribeiro diz assim: “Todo mundo tem medo, mas a pessoa não pode ser medrosa. Para viver e fazer, é necessário manter uma coragem constante e acesa. Isto consiste em vencer a própria pequenez e é um dever e uma obrigação para com nós mesmos”. Cada pessoa é única, tem suas especificidades e sempre é delicado entrar em questões mais específicas porque a subjetividade organiza-se de tal forma que as pessoas costumam apoiar-se em seus limites (que não são naturais) para manter-se na inércia… A título das peculiaridades individuais, fica-se no comodismo e na zona de conforto que pouco produz (contraproduz?) ou configura-se como privilégio injusto nos contextos de precariedade e enfrentamento ao luxo que funda-se e mantém-se pela miséria.

Não é um contexto simples. Mas necessariamente o risco é inevitável (e potencializado), existe relação de autoritarismo, mas não será superado sem enfrentamento. Uma forma de enfrentamento necessariamente é o uso cotidiano da bicicleta. Educativamente, pra superar os medos, desenvolver habilidades e também para desenvolver outras relações no espaço de tirania do carro. É a batalha cotidiana para desenvolver outras relações na prática, na ocupação do espaço, na luta nua e crua, se assim quiserem… E também há a dimensão estratégica de criar demanda.

Tanto para os burocratas do Estado como para outro segmento parasitário como o é o privado capitalista (quanta redundância!), é preciso existir demanda pra que algo seja realmente implementado. Pra se concretizar é preciso ser necessário. Agora a demanda por espaço pra bicicleta, grosso modo, é coisa da cabeça de algumas figuras que não adjetivo aqui, mas ainda não é algo que é indispensável, digamos. Técnica e demandantemente, não está na ordem do dia, não é da pauta das “políticas públicas”…

Todavia, as pessoas dizem que só usarão se tiver espaço, se se sentirem seguras de pedalar neste espaço de barbárie quase absoluta… O que vem antes? Parece um beco sem saída… Como avançar nisto?

As três idéias centrais apresentadas inicialmente, depois um pouco desenvolvidas e articuladas ajudam a responder, e romper o fim do beco, construir caminhos para além do suposto fim do caminho. São apenas algumas problematizações pra gerar coisas, pensamentos, inquietações e quem sabe avanços… E aí?

bicilogo_critica
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